Débora Oliviera

O cenário atual do rock em Brasília

jun 29, 2017 D bora Oliveira
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Desde os anos 80, Brasília tem sido o berço de diversas bandas de rock, como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, ganhando o título de Capital do Rock. Hoje novos artistas estão trazendo de volta o olhar para o cenário do rock na cidade.



Banda Dona Cislene: ” Colocar Brasília no nosso trabalho é algo tão natural que a gente nem percebe, essa é a cidade onde nascemos e crescemos. Gostamos de citar coisas específicas da cidade.”



O cenário do rock em Brasília é de altos e baixos. Assim como um gráfico cardíaco que nunca está em linha reta, a cena do rock em Brasília começou por volta dos anos 80, quando a cidade ganhou o título de capital do rock, após bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude surgirem, com letras que em sua maioria faziam críticas ao governo e à ditadura militar. Depois vieram os anos 90, quando a banda Raimundos ganhou destaque e em seguida as bandas dos anos 2000, como Móveis Coloniais de Acaju e Bois de Gerião.

Durante os últimos 30 anos, o título de capital do rock foi atribuído a outras cidades, mas no fim sempre acabava voltando para Brasília. “Essa é uma demonstração de que uma nova onda está surgindo, uma nova geração que está fazendo rock novo e influente a nível nacional”, conta o roadie Marcel Papa.
Embora tenha passado por um período ofuscado, o rock em Brasília hoje vive um cenário que está em ascensão, com bandas que estão colocando de volta a capital federal no mapa da música. O mercado nunca voltará a ser o que era nos anos 80, mas está trazendo os holofotes de volta para a cidade.
No ano de 2015 uma banda da cidade, Scalene, participou de um reality show onde chegou até a etapa final, ganhando assim, visibilidade e mostrando que ainda existe um cenário do rock em Brasília. Não só a Scalene trouxe esse olhar de volta, mas também as bandas que começaram por volta dos anos de 2008/2012, como a Dona Cislene, ETNO e Alarmes, que recentemente fez uma participação especial na novela Rock Story, exibida na rede TV Globo, onde tocaram a música “Incerteza de um encontro qualquer”.


Gabriel e Luan, banda Sinco
O que diferencia o cenário atual em Brasília  do passado e também do cenário de outras cidades, é que na maioria das vezes, se tem várias bandas seguindo o mesmo estilo. Já em Brasília, existe uma ampla liberdade de estilos, onde as bandas caminham juntas, mas com estilos diferentes. Na opinião do produtor Ricardo Ponte isso faz com que o cenário nunca se iguale ao que era antes, tendo desde bandas com um som mais pesado, a outras com instrumentos como sanfona e triângulo. Discursos que vão desde o dia a dia em Brasília aos que falam sobre amor e sentimentos.

Na cena atual as bandas estão cada vez mais profissionais e os músicos precisam saber fazer tudo. Hoje não se tem gravadoras para investir em uma banda e ela somente tocar. A cena atual é de trabalho em equipe, onde se tem uma banda junto com produtores, roadies e toda uma equipe produzindo juntos. É um cenário onde, na maioria das vezes, não se tem contratantes, e onde se tem que criar trabalhos, eventos e festivais próprios para poder tocar e estar perto do público.

No mercado atual, as bandas trabalham muito mais para se manterem, tanto de forma financeira quanto no mercado. “A grande verdade é que se a banda não se movimentar, ela provavelmente não vai ter trabalho”, conta Guilherme de Bem, guitarrista da banda Dona Cislene. O músico Guilherme Holanda conta que essa não é uma dificuldade exclusiva do rock, mas concorda que bandas que trabalham com esse gênero sempre precisam correr muito mais, por conta da pouca visibilidade que se tem em relação a outros estilos.



João Pires, banda Lupa
Definições
Definir o rock é algo quase impossível, e essa é uma opinião unânime entre os entrevistados  para esta reportagem. Mas segundo o fotógrafo Cadu Andrade, pode-se dizer que é a necessidade de quebrar com algum padrão. O eterno ato de se rebelar contra as definições de bom e ruim. É recriar e reconstruir o velho do seu jeito, mas também é cuspir o que pensa construindo algo novo. “O rock é muito mais do que um gênero musical, ele é atitude.” , diz Cadu.
Definir o cenário atual do rock em Brasília com bandas é algo quase que impossível já que esta é uma cidade diferente. Para o baterista Bruno Duarte, a capital é uma cidade que respira arte e que tem uma diversidade cultural tão forte ao ponto de não ter bandas específicas para representar o cenário da música.
É comum ver em várias cidades o trabalho de um grupo se destacar e logo aparecerem outros com um trabalho bem parecido. Até mesmo em Brasília, quando o rock surgiu, as bandas seguiam um estilo parecido, mas hoje isso não acontece mais na cidade.
As bandas estão juntas num mesmo cenário, o do rock, mas seguem estilos completamente diferentes. Existe uma pluralidade na cidade, se espelham no trabalho uma das outras no quesito profissionalização, público e visibilidade. Todas buscam sempre o melhor, mas ninguém quer ser igual a ninguém.
“Se uma banda está fazendo uma música e acha parecida com o estilo de outra banda, já muda tudo e coloca coisas mais características da banda na música, para que não fique parecida com o trabalho de outra pessoa”, conta o roadie Marcel Papa, que trabalha com várias bandas e percebe isso na cena.


Fernando Vaz, banda Ellefante
Dando visibilidade ao rock
O documentário “A nova cena” teve seu roteiro desenvolvido por Gabriela Cardoso, juntamente com uma equipe de quatro pessoas: Sendo, Gabriela Cardoso e Gabriel Menezes à frente da direção e Daniel Noronha e Jessica Cardoso como diretores de fotografia.
A ideia principal do documentário é dar visibilidade para as bandas que existem hoje e que têm um trabalho muito bom, mas que não tem o reconhecimento nacional. “No documentário, contamos histórias do que estava acontecendo na cena de Brasília quando bandas, como a Scalene, estavam surgindo por volta do ano de 2008, o percurso e a evolução profissional das bandas e de todas as pessoas envolvidas com o cenário até formar o que é a cena musical que temos hoje em dia”, conta Gabriela Cardoso.
O documentário conta com 17 entrevistas, cada uma gravada em um ponto específico da cidade, entre eles, espaços como a Torre de Tv, o bar Piauí e o Sebinho. O documentário conta também com a cobertura de eventos variados do rock autoral.
Em relação a parte boa de se gravar um documentário, o grupo conta que o melhor do projeto não é que ele é um filme documentário, mas sim que é um documentário sobre a cena de Brasília. “É muito gratificante, é uma coisa que todos da equipe são apaixonados há muito tempo já”, conta Gabriela.
Para o diretor de fotografia Daniel Noronha, um ponto legal em gravar o documentário é conhecer mais a fundo o trabalho das bandas e saber de coisas que se não fossem pelo documentário não iriam saber. Já a fotógrafa Jessica Cardoso conta que ao longo das entrevistas foram vendo que as histórias de todos iam batendo, que todos tinham coisas engasgadas para falar e que parecia que tinham combinado as respostas antes, pois tudo se encaixava.
Sobre a frase clichê, o rock morreu, o grupo discorda totalmente e conta que o rock nunca morreu. Para eles o que morreu na verdade foi o interesse da mídia em falar sobre esse assunto. “Em especial Brasília, sempre teve um certo preconceito com o que vem depois. Os anos 80 tinham preconceito com os anos 90 e assim por diante, sempre acham que o que vem depois é ruim”, diz Gabriela Cardoso.
“Não tem como você olhar para bandas como Alarmes, ETNO, Dona Cislene e dizer que o rock morreu ou que em Brasília não tem mais rock. A ETNO tem 15 anos de estrada e se não fosse uma banda com um bom trabalho não estaria há tanto tempo na cena”, conta Jessica Cardoso ao lembrar de bandas da cidade.
O grupo acredita que a cidade está caminhando para reconquistar o título de capital do rock, e que o papel da mídia é unir forças para mostrar que o rock de Brasília ainda existe, pois acreditam que um dos maiores problemas é a questão da divulgação. “Eu sei que as bandas conseguem conquistar o público fácil porque elas são muito boas. O problema é que elas não conseguem chegar às pessoas, apenas em quem já está inserido nesse cenário”, conta Gabriela.
O grupo que fez o documentário totalmente de forma independente, sem nenhum tipo de financiamento, está à procura de parcerias para conseguir finalizar o material da melhor forma possível. O documentário tem previsão de ser lançado no segundo semestre de 2017.

Por trás de uma banda
O bom trabalho de uma banda não é mérito exclusivamente dos músicos que tocam e que cantam. Por trás de um bom show ou um bom álbum provavelmente está o trabalho de uma equipe de produtores, roadies, entre outros, pessoas que na maioria das vezes são desconhecidas do público.
Produtor musical: O trabalho de um produtor musical vai muito além de apenas arrumar uma música e deixá-la bonita. Um produtor musical deve sempre enxergar além do que a banda está vendo, de forma a melhorar o trabalho, pegando cada integrante da banda e tirando dele o que há de melhor.
Engenheiro de gravação e mixagem: Esse é um trabalho técnico, feito dentro do estúdio, onde o profissional tem como principais funções direcionar o trabalho dentro do estúdio e fazer a finalização do material produzido.
Roadie: O nome roadie vem da palavra road, que em inglês significa estrada. Ou seja, roadie é aquele que está na estrada. No sentido literal da palavra, pode-se dizer que todos os técnicos que viajam com as bandas são roadies, sejam iluminadores, engenheiros de som, diretores de palco, técnicos especializados. Mas falando do roadie da forma como é definido hoje, seria o técnico especializado em alguma parte específica do espetáculo.
O roadie é responsável pela perfeita execução do espetáculo e seu trabalho é tão importante quanto o dos músicos, técnicos de som, iluminadores e todos os outros. Durante um show é importante que todos os roadies estejam focados, para auxiliar os músicos, auxiliar outros técnicos, prevenir acidentes ou resolver problemas inesperados.

Fotógrafos: Os fotógrafos têm como papel registrar momentos do show. É muito importante para uma banda, que além da música, ela consiga suprir essa necessidade. É fundamental que uma banda compartilhe com seus fãs fotos e vídeos quase diariamente. A grande importância da fotografia musical é transmitir para quem está vendo a foto a mesma sensação de quem estava presente lá no show, é eternizar aquele momento, aquela energia. Não é só o registro da imagem em si, mas sim de tudo que estava envolvido naquele momento.


“Muito mais do que capital do rock, Brasília é capital da música, da arte e da cultura. De uma mesma cidade saíram músicos renomados de diferentes gêneros e estilos.” Bruno Duarte baterista da banda Sinco.

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Agradecimentos ♡
– Bem, esse texto sobre ” O cenário atual do rock em Brasília” foi o meu projeto integrador do semestre, e com ele anuncio que finalmente o meu semestre acabou (isso quer dizer que vou voltar para o blog! haushaus).

Apesar de ter sido um semestre extremamente difícil e corrido, foi um semestre de muito aprendizado, e uma das coisas mais legais que aconteceu nele foi poder produzir essa matéria, tento a oportunidade de conhecer um cenário lindo, com pessoas que tem histórias maravilhosas e um trabalho incrível.

Quero agradecer as minhas fontes por me apresentarem e me ajudarem a entender a cena do rock, que vai muito além da música!

DONA CISLENE: Bruno Alpino, Guilherme de Bem, Pedro Piauí e Paulo Sampaio – LUPA: Múcio Botelho, André Pires e João Pires – SINCO: Enrico Timm e Bruno Duarte – O TAROT: Caio Chaim, Vítor Tavares e Vinicius Pires – ELLEFANTE: Adriano Pasqua, Fernando Vaz e João Dito.

Yvã Santos, Cadu Andrade, Marcel Papa, Juliano Correia, Philippe Seabra, Ricardo Ponte, Guilherme Holanda – A Nova Cena: Gabriela Cardoso, Jéssica Cardoso e Daniel Noronha.

Ps:Nas bandas coloquei apenas o nome de quem entrevistei, mas os agradecimentos se estendem as bandas inteiras!

Source: Débora Oliveira

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